Farinhada de Jatobá reúne comunidade e fortalece saberes tradicionais no Quilombo Poço Dantas
No dia 26 de setembro de 2026, a Onça D’Água esteve com a comunidade do Quilombo Poço Dantas apoiando a realização da primeira farinhada de jatobá na região da Serra Geral. A comunidade está localizada no município de Almas, no Tocantins, e guarda consigo a cultura e as tradições de seus ancestrais. A ação faz parte do projeto “Fortalecendo e Ampliando Iniciativas Produtivas Sustentáveis Desenvolvidas por Comunidades Rurais em Áreas de Proteção Ambiental no Cerrado Tocantinense”, coordenado pela Onça D’Água.
Assim que o sol nasceu, as mulheres da comunidade, lideradas por Miguelanes Crisóstomo, liderança do quilombo, já estavam na cozinha preparando o café da manhã para os convidados que estariam presentes mais tarde na farinhada. Após o café, todos se reuniram em roda para prestigiar a apresentação cultural das crianças do projeto Chão de Saberes, com folia e dança da suça.
Miguelanes destaca que a comunidade conseguiu uma ampla mobilização do quilombo, das comunidades vizinhas e da própria população de Almas. “Eu tenho certeza que esse momento é muito enriquecedor para nossa comunidade, para os nossos associados. E daqui para frente nós já estamos com essa experiência, e eu tenho certeza que será muito valioso.”
O presidente da Associação do Poço Dantas, Aniel Crisóstomo, deu início aos trabalhos com uma fala sobre a importância da farinhada de jatobá como forma de manter vivas as técnicas de produção de seus antepassados. “Temos que manter a nossa cultura, a cultura dos nossos ancestrais, porque, se não preservarmos e valorizarmos, em algum momento isso tudo vai acabar, como a técnica do pilão, da mesa e da roda de farinha, do tapiti”, destacou.
Foi a primeira vez que a comunidade teve contato com a produção da farinha de jatobá. Por isso, a Onça D’Água convidou o mestre José Batista dos Santos, conhecido popularmente como Zé Menininho, morador da Fazenda Nova, no Jalapão, para conduzir e instruir todo o processo de produção da farinha. Zé trabalha com o fruto há 20 anos e destacou o trabalho feito pela comunidade. “A produção foi boa, nós produzimos uma grande quantidade. O jatobá daqui já pode sair daqui direto para o mercado, porque é boa a qualidade.”
Além de Zé, estiveram conosco nossa parceira Silvana Bastos, responsável pelo Programa de Sociobiodiversidade do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Antônio Carvalho, apicultor do PA Manchete, localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Ilha do Bananal/Cantão, Átila Dias e Deusely Freire e da Associação de Apicultores e Meliponicultores de Almas e Região (APIAM).
Para Silvana, a farinhada representa o trabalho coletivo, o protagonismo comunitário e os meios de vida sustentáveis que mantêm o Cerrado em pé. “O ISPN é parceiro dessa luta, a Rede Jatobá representa isso também, de estruturar a cadeia de valor do jatobá no Tocantins, e esse dia é especial para mostrar essa força”, destacou.
Na hora de colocar a mão na massa, ou melhor, no jatobá, toda a comunidade se reuniu embaixo de um pé de manga e iniciou a quebrança do jatobá. O primeiro passo da produção é retirar a polpa do fruto de dentro da casca, quebrando-a com um porretinho de madeira. Em seguida, a polpa é pilada no pilão convencional ou pode ser retirada com o uso de uma despolpadeira elétrica, que acelera o processo.
Após esse processo, a farinha, ainda em seu estado mais grosso, passa pela peneiragem. Primeiro, ela passa por uma peneira mais grossa e, depois, por uma peneira mais fina, quando finalmente se chega ao produto final. Durante todo esse processo, a comunidade trabalhou em conjunto, com a participação ativa de lideranças, homens, mulheres e crianças, além de nossos parceiros e de seu Zé, que orientou os participantes.
Mas não acaba por aí. Após todos esses passos, a farinha ainda é torrada. Antes disso, após uma parada para o almoço e descanso, foi realizada uma roda de conversa com toda a comunidade para ouvir as impressões de quem produziu a farinha pela primeira vez.
Em seguida, foi iniciada a torragem da farinha. Os participantes juntaram a lenha, acenderam o fogo e, depois, colocaram a farinha no forno, que é o mesmo utilizado para produção da farinha de mandioca. O processo envolve mexer a farinha com uma pá, em movimentos de vai e vem.
Ao final, temos o produto: a farinha de jatobá. Ela pode ser utilizada para fazer diversas receitas, como bolos e pães, além de enriquecer a alimentação escolar quando utilizado em vitaminas e biscoitos. A farinha produzida foi distribuída entre os participantes. Ao todo, foram produzidos cerca de 44 quilos de farinha.
Com isso, a Onça D'água concluiu uma das principais atividades contempladas no Projeto “Fortalecendo e Ampliando Iniciativas Produtivas Sustentáveis Desenvolvidas por Comunidades Rurais em Áreas de Proteção Ambiental no Cerrado Tocantinense”, que tem apoio do Fundo Ecos/ISPN/GEF/PNUD.












