“Um Dia no Parque” e as Eleições de 2026
Como os candidatos ao governo do Tocantins se posicionam em relação
às Unidades de Conservação da Natureza

UMA CAMPANHA QUE NOS LEMBRA DO ÓBVIO
Todo mês de julho, o Brasil se mobiliza em torno de uma data quase despretensiosa: o “Um Dia no Parque”. Criada em 2018 e promovida pela Coalizão Pró-Unidades de Conservação — que reúne nomes como WWF-Brasil, Instituto Semeia, Conservação Internacional do Brasil, Imazon, Fundação SOS Mata Atlântica, Ipê, Imaflora, Fundação Grupo Boticário — a campanha existe para lembrar algo que deveria ser óbvio, mas que o cotidiano insiste em apagar: perto de quase todo brasileiro há uma área protegida, e essa área gera serviços ecossistêmicos que sustentam a vida ao seu redor.
Em 2026, sob o tema “Campeão por Natureza” — numa referência oportuna à Copa do Mundo — a mobilização levou atividades gratuitas a diversas Unidades de Conservação (UC) distribuídas por oito estados, entre eles o Tocantins. Por aqui, unidades como o Parque Estadual do Cantão, em Caseara-TO, o Parque Estadual do Jalapão, a APA Jalapão, a RPPN Catedral do Jalapão, em Mateiros-TO, e o Parque Estadual do Lajeado, em Palmas-TO, já vem realizando suas próprias programações, ano a ano, em alinhamento com a campanha nacional, muitas vezes organizadas em parceria com associações locais que vivenciam o território de perto.
É uma campanha simples na forma, mas ambiciosa no propósito: aproximar a população das UCs para que ela as reconheça — e, reconhecendo, as defenda.
ONÇA D'ÁGUA EM "UM DIA NO PARQUE"
A Associação Onça D’água divulga, participa e promove atividades alusivas ao “Um Dia no Parque” desde a versão do ano de 2021. Neste ano de 2026 a organização celebrou as Unidades de Conservação da Natureza com uma programação no Sítio Seis Pétalas, localizado na APA Serra do Lajeado, que contou com uma roda de conversa para discutir sobre o Sistema Estadual de Unidades de Conservação do Tocantins (SEUC), caminhada em trilha na mata ciliar e banho de rio.
Os participantes tiveram a oportunidade de conhecer as iniciativas produtivas sustentáveis do Sito Seis Pétalas: Sistema Agrofloresta (SAF); meliponário (criação de abelhas nativas sem ferrão); sistemas ecológicos de construção e aproveitamento da água; avicultura e produção de ovos livres de químicos. Aprenderam que, na APA Serra do Lajeado, esta UC estratégica e essencial para a manutenção da saúde ambiental da capital Palmas e dos municípios vizinhos, tem em seu território, além do Sito Seis Pétalas: o Sítio Arqueológico Caititu; o distrito de Taquaruçu; o Parque Estadual do Lajeado; a Estância Garra; a RPPN Monte Santo; o Morro do Limpão; e tantos outros lugares especiais que resguardam a natureza e a cultura.
POR QUE ESSE ASSUNTO IMPORTA JUSTAMENTE AGORA
O calendário de 2026 coloca essa reflexão sob uma luz diferente. Em outubro, o Tocantins vai às urnas para eleger, entre outros cargos, o próximo governador do estado — e a disputa promete ser competitiva, reunindo lideranças do Legislativo estadual e o atual vice-governador em uma corrida de sete candidaturas.
Isso levanta uma pergunta que “Um Dia no Parque” torna quase inevitável: se a sociedade civil se organiza, ano após ano, para lembrar o valor das Unidades de Conservação da Natureza, porque esse tema raramente ocupa lugar central nos debates eleitorais? E, mais especificamente: quais candidatos ao governo do Tocantins tratam a proteção da biodiversidade e das UCs como prioridade concreta de gestão — com metas, prazos e orçamento — e quais tratam o tema como menção genérica de campanha?
O RETRATO ATUAL: O QUE CADA CANDIDATO PROPÕE
Uma análise recente, feita pela Coalizão Vozes do Tocantins por Justiça Climática — uma rede de 15 organizações da sociedade civil que inclui representantes de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, movimentos de reforma agrária e a Universidade Federal do Tocantins — publicada pelo Jornal Opção (tocantins.jornalopcao.com.br) avaliou os planos de governo das sete candidaturas na área ambiental. O retrato que emerge é desigual: há propostas detalhadas e outras extremamente vagas; há avanços reais e lacunas recorrentes.
Confira a seguir:
Professora Dorinha (União Brasil) apresenta um eixo específico dedicado a “Meio Ambiente, Sustentabilidade e Causa Animal”, com a conclusão dos planos de manejo das unidades de conservação, recuperação de vegetação nativa e restauração ecológica entre as metas. A Coalizão reconhece o esforço, mas pondera que as propostas parecem priorizar os interesses de produtores e investidores, sem um processo claramente voltado à proteção dos serviços ecossistêmicos.
Professor Witer (PSOL) propõe uma reorganização institucional mais ampla — substituindo a atual secretaria de meio ambiente por uma “Secretaria do Patrimônio Natural e Desenvolvimento Territorial Sustentável” — com proteção do Cerrado e agroecologia como eixos centrais. Entre as sete propostas, é a que a Coalizão considera mais alinhada às suas próprias prioridades, embora alerte para o risco de a pauta ambiental perder peso institucional ao ser distribuída entre diferentes setores do governo.
Vicentinho Júnior (PSDB) conecta conservação, produção rural e geração de renda, com propostas como o “Tocantins Carbono”, agroflorestas e monitoramento das bacias dos rios Araguaia, Formoso e Tocantins. A Coalizão, no entanto, classifica boa parte do plano como “excessivamente vago” — a ponto de dificultar qualquer avaliação séria — e questiona se o interesse público prevalecerá sobre o privado nas bioindústrias do Cerrado propostas.
Laurez Moreira (PSD) ancora seu plano nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, com força-tarefa contra o desmatamento ilegal e Manejo Integrado do Fogo. A avaliação é favorável no tom, mas a Coalizão repete a mesma ressalva: falta detalhamento sobre como as medidas seriam de fato executadas.
Du Pereira (Democracia Cristã) propõe corredores de biodiversidade e monitoramento hídrico, e é um dos poucos cuja proposta de licenciamento é elogiada explicitamente pela Coalizão por não sinalizar flexibilização das exigências ambientais.
Ataídes Oliveira (Novo) defende licenciamento com prazos definidos e uso de tecnologia na fiscalização — mas é justamente esse ponto que gera a crítica mais direta da Coalizão, que vê nos prazos fixos um risco de atropelar processos que exigem cautela.
Luiz Carlos (Democrata) apresenta o plano mais enxuto entre os sete, com fiscalização reforçada na Ilha do Bananal e combate ao arrendamento ilegal de terras indígenas e unidades de conservação. A Coalizão pondera que combater apenas o desmatamento ilegal não resolve a totalidade dos problemas ambientais do estado.
A LACUNA QUE ATRAVESSA QUASE TODOS OS PLANOS
Mais revelador do que as propostas individuais é o que a Coalizão aponta como ausência comum: a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais na formulação das políticas ambientais aparece pouco ou de forma superficial na maioria dos planos; o mercado de carbono — presente em várias propostas — é tratado como solução pronta, apesar das críticas conhecidas sobre sua efetividade real; e a agricultura familiar quase desaparece diante do protagonismo dado ao agronegócio. Para a Coalizão, as propostas vagas “são o que há de pior”, porque não oferecem à população nenhum instrumento de cobrança e monitoramento após a eleição.
O QUE “UM DIA NO PARQUE” PODE NOS ENSINAR SOBRE COMO VOTAR
Talvez o maior valor de uma campanha como “Um Dia no Parque” não esteja apenas em levar visitantes a uma trilha do Cantão, a um fervedouro do Jalapão ou a uma cachoeira do Lajeado, mas em nos lembrar que Unidades de Conservação da Natureza não são cenário de fundo. São na verdade infraestrutura viva, que regula água, clima e biodiversidade, e que depende de decisão política para ser mantida e conservada.
Se em julho a sociedade civil se mobiliza para mostrar o valor dessas áreas, em outubro cabe ao eleitor tocantinense fazer a pergunta inversa: qual candidato vai, de fato, garantir as ações efetivas para a proteção do Cerrado - fortalecendo a política ambiental e a gestão das Unidades de Conservação da Natureza - e qual vai apenas repetir a palavra “sustentabilidade” em um parágrafo de campanha?
A resposta, como mostrou a análise da Coalizão, ainda está em aberto para a maioria das candidaturas.












